segunda-feira, 12 de março de 2012

À Prova de Sonido

Sua falsa resposta autoacusatória dizia que ela era a mais incompleta, mais distante e mais difícil de chegar, aonde quer que fosse. Dormia com um atravessamento de possibilidades, de silêncio, de ortivez auto-penitente. O silêncio era um pau atravessado na sua garganta. Sua pele picava buscando algo ou alguém a quem falar.
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Mas as Coisas ali viviam todas pra dentro de si mesmas e tratavam, na sua condição imperiosa de Coisa, de fazê-la sentir-se assim também. As Coisas, imperiosamente, não têm que se auto-explicar. Elas são como ninjas, representam perigos mas não se deixam notar. Oferecem um grande vazio de sonido com algo de apreensão por atrás.
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domingo, 10 de abril de 2011

Samba de espelho

Eram duas porque havia um reflexo.
Entram com o holor dos deuses! Em salto alto e com a conveniente roupa de baixo se põem em frente ao espelho, ambas, seguindo os passos da arte de enfeitar mulheres entre pinturas e adereços.
Música... cada parte se coloca em um momento imaginativo onde a estética baila.
Cada peça vestida compõe parte de um movimento... a coreografia se completa diante de seu revés, com uma composição sincronizada entre duas personagens que bailam, cada uma a seu lado em ritmos iguais.
Duas negras faziam seu samba de espelho.

sábado, 9 de abril de 2011

Querido diário, meu primeiro dia de aula...

Hoje tive ganas de relatar o primeiro momento caótico de 2011. Não sei se por acaso está mesclado ao momento de retorno às instituições acadêmicas. Ontem foi meu primeiro dia de aula na Universidad Federal de San Martin e assim começa a saga.
Ontem, sexta feira, fui treinar no circo criollo a 1 da tarde... voei no trapézio, treinei arame, socializei, tudo lindo. Aí mesmo me banhei e segui para Paraná 145, piso 5, onde participaria do primeiro encontro da turma 2011 do curso de Gestão Cultural. Quando saí de casa não havia tido tempo de comer quase nada pra poder chegar a tempo para os treinos mais cedo para que, por su vez, a universidade coubesse no meu dia. Saí do circo correndo pelas estreitas ruas do centro e por sorte encontrei uma torta vegetariana em uma esquina no caminho, que comi sentada na escadaria de frente à sala de aula enquanto alunos e professores passavam tentando ubicar-se no tempo e no espaço daquele ritual metido a sério (como sempre). Não mais engoli a comida entrei à sala de aula e escutei pessoas se apresentando organizadamente sob uma pseudo-dinâmica metodologia de socialização guiada por duas horas. Quando se fez o intervalo para começar de fato a aula minha cabeça latejava... vocês não imaginam o quanto! Pela primeira vez depois de um dia de treino não eram costas, braços e mãos que doíam, era a cabeça.
Depois um mórbido silêncio se fez por duas horas mais enquanto, junto com o diverso grupo de estudantes, ouvia as mais interessantes questões sobre economia de la cultura. A discussão é intensamente envolvente, me faz pensar na parte boa da antropologia e das ciências sociais em geral que pude conhecer nos últimos anos. O silêncio e as posturas corporais que nos serviram de cenário me torturou completamente por todo o tempo que estive aí. Tudo que eu queria era aquela mesma aula, mas sentada no chão tomando mate. Que caralho! Com ótima companhia comi em uma pizzaria localizada na avenida Corrientes, ao lado do obelisco, e por um momento me senti de volta como em viagem, mundo novo e essas tonterias que nos acometem quando estamos longe.
Enfim consegui chegar a casa.
Fui dormir pra ter pique pra aula de hoje, sábado de manhã. Fechei os olhos e o despertadou tocou. Já era hoje!! Que caralho! Já me levantei puteando...
No caminho retomei o bom humor e segui pra aula tranquila. Escutava Pink Floyd, depois coloquei Dizarie e logo adormeci. Acordei de frente pro Obelisco e pensei, vamos nessa pra mais uma dose de postura acadêmica... só em pensar me doíam as costas mas era interesante, então, vamos lá! E assim foi. Interessante e torturante. Já estava com os dois pés acima da cadeira tentando transformar aquilo em algo confortável ao corpo, em algo caseiro, como que para o conhecimento se sentir confortável e entrar mais fácil. Ao final, conheci dois colegas, tomamos subter juntos, foi legal isso tirando um empurra-empurra de la réé puta madre quando fomos entrar no vagão. Tava lotado como sempre. Em algum momento tive a impressão de ver o zíper da minha mochila em um lugar que não havia posto. Abracei a mochila e segui. Quando baixei já não tinha carteira.

La ré puta madre que te ré mil parió!!! Que garca hijo de puta!

Foi o que pensei na hora. Filho da puta só levou meus documentos porque nem dinheiro eu tinha.
Levou embora o bom humor que eu trazia comigo pra casa e deixou um bocado mais de questões burocráticas e torturantes com as quais os de fora tem que lidar, sempre com um pouco mais de dificuldade pela gringuês escolhida.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

Puta que Pariu!

Hoje encontro um misto de agonia, ansiedade, náuseas, dúvidas. Tenho uma intranquilidade que não tem sido comum talvez porque esteja prestes a sair... talvez porque esteja pensando que será preciso retornar antes do que havia pensado. Talvez porque tenha me dado conta de que haverá um retorno que deve ser organizado e que por alguma razão, ou várias delas, se pretendia ignorado.
Desprendimento é sempre um misto daquilo que queremos deixar, daquilo que devemos deixar, mas também daquilo que temos que conter e daquilo outro que nos contém, que permeia nosso peito.
Puta que pariu!
Porque que a gente se prende no que é solto? E porque a gente não se solta já que não está preso em nada?
Aff aff aff
Hoje me dói a cabeça desde que o sol raiou ... camomila nenhuma deu conta disso.
Eu não dou conta de mim nesse exato momento e exponho desabafos não-poéticos pra me eximir de qualquer coisa sufocante que sei que não sumirá.
Puta que pariu! Que agonia é essa hoje...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Minha Fadiga

Tenho sempre uma briga,
pra aprender a boiar,
pra aprender a dormir,
pra aprender a parar.
Tive que fugir pra aprender como ficar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Verdade Enviesada

A verdade que decidimos ter é metade de mentira e metade de loucura.
Nossa verdade é muito mais acreditada por mim que por ti. Você duvida das suas propostas um segundo após tê-las dito. E às vezes encontra algo em mim que lhe apetece, mas meu sabor te parece amargo no final, pois não ficas.
Nossa verdade é amarela e covarde porque a coragem do que dizemos com doação e afinco se desfaz feito orvalho ao esquentar do sol.
A tua completude não passa de tua pele, não atravessa nada para que se aproxime de mim, embora tuas palavras busquem o que há escondido aqui... e que é tão bem guardado.
E quando me perguntas se deves esperar, se deves ligar teu espírito ao meu, rasgo meu mapa e me perco em sim, mas não encontro tua verdade embora já a tenha idealmente em tantos sonhos antes de te conhecer.
Queria ouvir o que dizes mantendo tua metade louca e tendo tua porção sincera.

domingo, 28 de novembro de 2010

Qualquer vazio, vácuo ou ausência desimportante

Os seres do querer são todos ausentes, são um campo inexistente de possibilidades e apenas é necessário um segundo olhar nem tão atento para dar-me conta de quão pueril são todos eles, os que quis e os que apenas cheirei.
Minhas flores tortas nem cotidiano são. Busco outras questões que tornem os dias interessantes pois a maquiagem dos homens é sempre dura demais, emadeirada, terrosa, dourada que seja, mas sem requintes em cílios, beiços e laços. Um jardim de pétalas soltas voa e revira sem me tocar... lindo que seja assim, a esquiva me apetece embora não seja necessária.
Sofrer? desconheço. Brinco e brindo no hall do parque vazio, cidade cheia de ninguéns.
Holismo inexistente às vezes tenta se botar em meu retrato, mas se eu sou o caos nem retrato me comporta. Sobram farpas, raspas e pontas de minha maciez. Carne doce e lasciva que se desfaz com o vento, com o cotidiano virando vácuo poético sob nossos pés.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

para paixões ausentes

Maria acordou estranha, sentindo falta de seu braço. Era como se o vento a boicotasse soprando apenas ao redor a deixando com aquele sentimento de mormaço dentro do peito. Inevitavelmente construiu um dia calado, sem música. Passou os primeiros momentos da manhã seguindo as pistas deixadas em seu território, estranhamente alheiado... os cheiros, os objetos esquecidos e outros deixados por querer misturavam-se a ela fazendo rodar mais sua cabeça. Tentando esconder de si tantas pistas de saudade esbarrava mais e mais em sua vida acortinada pelos fios de cabelos soltos em sua cama desterriotorializada. Talvez aquilo tudo passasse pela ausência mas ainda nela tudo era presença, cheiro e algum suor.
Maria foi dormir certa noite sentindo já não ter por perto quem ainda estava lá. Algumas frases lhe rondavam os pensamentos... ela sabia o que aquele avião levava embora e era um pouco mais que um cotidiano compartilhado... era tanto de perspectiva, de possível tornando-se inexistente porque agora a paisagem era outra. Quando tomou um chá da tarde com seu destino dias atrás, havia sido alertada de que se lançariam em algum limbo aquilo que para ela era somente amor. E desde então contrariada tentava não amar conquanto era essa sua pele e seu exalar. Ela não procurava entender porque se sentia assim... se sentia triste e achava contundentemente chato. Sentava-se para contemplar o tempo passando entre a lista de atividades que sua agenda lhe lançava e só queria queimar tudo aquilo e ir-se embora também, para qualquer lugar fora daquele peito oco, confuso, subliminarmente abandonado e apaixonado.
Naquela manhã amputada e incompleta, Maria não falou nem sorriu, apenas pensou e sentiu.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Contagem Regressiva

Não acordo
me jogo para fora da cama
Dou-me conta de que nem dormi
Noite-minuto sem fim

Levanto em salto
já caio sentada
em frente ao computador
Com uma puta dor


Não tenho tempo
O tempo me têm
E meu trabalho não tem fim
...assim...

Sou meu fim
São meu fim
É tudo uma grande catástrofe
Com um sentimento de catálise

Há muita sede e nenhum cálice.